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A Linguagem no Candomblé

Sabemos como já vimos (vide o link "Pronúncia") que somente podemos encontrar a forma escrita R seguida da vogal I, porém com frequência vemos comumente palavras pronunciadas com R seguidos de outras vogais no candomblé, aonde este R normalmente deveria estar em kimbundu substituido por L. Assim, por exemplo, pronuncia-se no candomblé INGOROSSI, ANGOROSSI, palavra que não encontramos no dicionário de kimbundu, e sim Ngoloxi. Aqui vemos também a troca da letra X pela letra S. Não podemos dizer que existe erro propriamente se considerarmos o aspecto que a língua adquiriu no Brasil, fazendo com que a linguagem usada no candomblé assumisse quase que um caráter de uma nova língua criada a partir da miscigenação. Pude ver um dicionário Portugues-Chisena, falado em Moçambique, que encontra-se na internet (http://cabanavc.com/dicio/), palavras como Njara (fome), e nos dicionários de kimbundu temos Nzala (fome). Já ouvi pronunciarem e traduzirem no candomblé Zara, com o mesmo significado.

Isto não deve nos causar espanto algum, pois sabemos que aqui no Brasil houve uma mistura de etnias (destaquei aqui em específico o bantu), que puderam notar semelhanças em seu linguajar - da mesma forma que os estudiosos já haviam notado a mesma semelhança - fazendo com que Wilhelm Eirich Emmanuel Bleck, que dedicou-se ao estudo comparado das linguas Sul-Africanas, as designassem com o nome genérico de Linguas Bantu.

Com isso porém, não devemos esquecer, que não trata-se de uma cultura única, logo não podemos unificar costumes e tradições diversas como vejo comumente, sendo catalogados como do "povo bantu". De certo, povo bantu, mas somente pelo tronco linguístico comum, mas sem esquecer que embora existam semelhanças na língua, a corrente migratória ao longo do tempo acabou por diversificar muitos costumes de cada qual em particular.

Desde que a Hp foi lançada, tenho recebido muitas mensagens e solicitações sobre termos usados no candomblé, e bem sei a dificuldade de encontrar palavras tal como são pronunciadas em um dicionário, devido não só as deturpações que ocorreram por parte de alguns que repassaram da forma que "escutaram", muitas vezes com falhas na compreensão auditiva, além de repassarem muitas vezes para o papel de forma errada; ou muitas vezes até receberem a forma escrita correta, porém aquele que lê a pronuncia de forma incorreta por desconhecer a "correta" escrita e a pronúncia (por convenção daqueles que assim estabeleceram a língua da forma escrita), como é o caso da troca do som do G de gato; como por exemplo na palavra Ngimbiri (ou ngimbidi), pelo J, em que o menos avisado lê e pronuncia Injimbiri (ou Injimbidi); e assim ao longo dos anos os erros foram avolumando-se. Fora estas deturpações, temos também como já disse, que considerar a mistura que ocorreu aqui no Brasil, dos diversos grupos etnicos.

Por este último fator, teríamos que passar tal como Bleck, a tentar comparar a língua dos que aqui chegaram. Heli Chatelain em sua gramática coloca nas regras fonológicas e eufônicas observações para cada letra em particular, e faz referências as trocas (de uma para outra letra em dialetos e línguas afins).
Isto pude entender após ler atentamente, e chegar mesmo a poder comparar algumas palavras nestes dialetos e línguas irmãs que possuem a mesma definição para o português e percebi que houve a troca de uma letra (comparando uma com a outra), por variações da pronúncia que ocorrem entre estes povos. Este assunto terá seu destaque no menu da Hp, onde pretendo estar abordando o mesmo de forma mais profunda e exemplificada.

Assim devo dizer que muitas palavras incluidas no candomblé de Angola que não encontrávamos nos dicionários, poderão ser traduzidas quando passamos a dar atenção a tudo o que explanei acima.

Não devo dizer que é facil chegarmos a todas as traduções, o caminho é longo e penoso, principalmente para mim que ainda sou novata no candomblé. Existem também termos restritos, palavras que por ter seu caráter tão específico não são encontradas em um dicionário comum. Muitos me pediram para traduzir cantigas e mesmo rezas, e este não é um trabalho para mim. O que faço, e costumava fazer no fórum (hoje fora do ar), era trazer uma lista de palavras contidas nas cantigas ou que fossem semelhantes a elas - mas colocar uma forma escrita apropriada como muitos queriam, nunca. Não posso afirmar que uma palavra não existe somente por não a ter encontrado em um dicionário e trocar simplesmente por outra parecida, muito embora consiga perceber muitas vezes que nelas (muitas na forma em que me apresentaram) devam existir erros. Este é um trabalho que caberia melhor para os mais velhos, que podem unir o conhecimento e o estudo da linguagem, aos fundamentos do culto.

A língua está aí para nos ajudar a entender melhor o que possuímos e não para criarmos o novo ou darmos asas a imaginação. O objetivo do meu trabalho é colocar disponível o material que possuo e os estudos que vou fazendo a respeito da língua em si. Trocar ou corrigir o que me pedem a respeito do candomblé, é um trabalho que não me compete. Também sou contrária a idéia que muitos tiveram a partir do estudo da língua - passarem a criar novas rezas e cantigas mais "corretas" quanto a tradução, por saberem o quanto é difícil entender o que já possuem ou ainda então para preencher a lacuna do que não receberam.

Que o bom senso possa atingir estas pessoas, para que percebam que o legado cultural que temos é imenso, e que devemos preservá-lo a todo custo. Não se pode jogar fora assim todo um patrimônio cultural, toda uma história, tudo o que aqui foi implantado pelo negro em nossas terras. Que se unam para compreender melhor, chegar a um consenso, e não para apagá-los de nossa memória. Esquecem do homem que trouxe a língua, preferindo ficar somente com lingua que este homem trouxe, e muitas vezes passando a criar rezas e cantigas que nem mesmo se enquadram no contexto do divino ou da divindade. Na ansiedade de pureza e de entendimento, o candomblé passa por uma fase obscura, condenado talvez a extinção, ou seja, a troca de ritos, rezas, e/ou cantigas por outros elementos que aqui não chegaram ou não se propagaram ou, ainda, não se enquadram dentro do contexto religioso. Eu aprecio a leitura sobre a cultura dos povos de Angola, porém as tenho somente a nível histórico e de conhecimento - mas em relação ao culto até hoje não li nada que abordasse ou que pudesse ser comparado com a iniciação religiosa tal como vemos aqui no Brasil, no candomblé de Angola, em nenhum destes livros. Li sim, outros ritos que não enquadram-se no contexto religioso do candomblé. Muitos defendem mudanças somente devido a algumas semelhenças contidas entre alguns elementos da ritualística, mas infelizmente parecer não é ser. E digo que por enquanto nada encontrei, e aquele que tenha encontrado algo por favor me forneça a fonte. Todos, tenho certeza, gostariam de poder ler algo semelhante a iniciação no candomblé em terras africanas, eu não sou diferente, muito embora mesmo assim as usasse como forma comparada, pois sabemos que o tempo impõe mudanças, e teriamos que saber a época a qual refere-se o autor, bem como não devemos nos esquecer das mudanças ou adaptações impostas pelo meio.

Tenho me dedicado ao estudo da língua, porém quando falamos candomblé, creio que nada melhor que dirigir estes assuntos àquela a quem foi destinada a orientar o início de minha caminhada e o rumo de meus passos dentro do culto, a minha Mãe Maza Kessy. Sabendo do anseio de muitos, pedi à ela que elaborasse um vocabulário com palavras mais comumente utilizadas dentro do culto. Vamos aguardar!

Katulembe



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