Apóstrofo

Após receber um e-mail, e lendo atentamente o conteúdo da escrita, percebi a necessidade de acrescentarmos a nossa HP este tema. O assunto era: "Reino de Negola ou N'gola, e ao final deste tópico, estarei tecendo maiores comentários, tanto da forma escrita no "assunto", quanto ao próprio conteúdo de toda a mensagem que recebi.

Na gramática da língua portuguesa aprendemos que apóstrofo é um sinal em forma de vírgula alceada ('), para indicar supressão de uma letra (geralmente uma vogal).
Exemplo: mãe d'água (no caso o apóstrofo estaria no lugar da vogal E, ou seja, mãe dE água), galinha-d'angola (galinha-dE-angola).

Também no inglês, temos como exemplo "don't", que representa a forma acoplada de "do not", no qual ocorreu uma junção de "do" e "not", além de vermos que a vogal "o" (em "not") foi substituida pelo apóstrofo (n't). Outros exemplos de acoplamento e uso do apóstrofo são: it's (it is), you're (you are), I'm (I am). Deixo aqui de fazer a tradução para o portugês, mas servem apenas a título de exemplificação para melhor entendimento.

No kimbundu também por regras de convenção, podemos ver o uso do apóstrofo em diversas obras. Além disso na linguagem é comum o acoplamento e contração das palavras, que assim são representadas na escrita tal como a exemplo do inglês.
Por isso vemos escritas palavras no kimbundu como: mam'etu, tat'etu, 'xi, 'nzo, m'bika, m'bik'en, mon'ê; mon'é, etc.

Na gramática de Heli Chatelain, ele faz o uso do apóstrofo com a única e exclusiva finalidade de indicar a supressão de letras (substitui a letra que foi suprimida ou "desapareceu"), tal como aprendemos na gramática da língua portuguesa.

Porém em obras de outros autores, observei uso do apóstrofo com outras finalidades que não são unicamente a supressão.

Assim é que no dicionário de Cordeiro da Matta, encontrei muitas palavras nas quais o autor fez uso do apóstrofo onde Chatelain não o fez.

Devido a não termos uma língua "oficial" escrita em kimbundu, e termos ao mesmo tempo vários autores que fazem uso de suas próprias convenções ou que adotam uma para seguir, isto acabou gerando alguma confusão e acaloradas discussões. Observei até mesmo alguns desavisados "donos do saber" que fazem questão de esbanjar todo o seu conhecimento dando verdadeiras aulas de correção quanto a escrita, porém sem ter conhecimento destas variantes.

Assim, por exemplo, Cordeiro da Matta escreve Ng'enji (forasteiro, estranjeiro, viajante) e Ng'indu (trança); enquanto Chatelain escreve Ngenji (sem o apóstrofo entre a letra "G" e a letra "E"); e Ngindu (também sem o apóstrofo).

Surge a pergunta: "Quem estaria correto?"

Mas se soubermos que foram diferentes as regras adotadas por eles, e conhecermos os motivos de cada qual adotar esta ou aquela, o que fazemos é seguir a que julgarmos mais apropriada; porém, jamais diria que existe erro, uma vez que a língua oficial escrita não existe e estas convenções não foram oficializadas portanto.

Mas é bom que sempre haja um entendimento por parte daquele que escreve, em saber o porquê de estar escrevendo desta ou daquela forma, para que não aconteça o abuso, fazendo uso aleatório do apóstrofo ou de qualquer forma escrita sem nenhuma base ou regra (mesmo que esta seja pessoal), tal como pude observar no e-mail enviado.

Pensando assim, resolvi deixar aqui as diferenças e o porquê de cada autor escrever com ou sem apóstrofo uma mesma palavra.

Para melhor entendermos este tema, e lembrando do conteúdo do e-mail, acho por bem que antes de tudo devemos ter bem claro, em nossos estudos, o som nasal em kimbundu.


O SOM NASAL

O som nasal em kimbundu, que poderia ser representado talvez por um "~" acima da letra que queremos nasalar; por convenção da maioria dos autores que possuem obras escritas, é representado pelas letras "M" e "N". Estas letras estarão sempre representando o nasal quando precedendo consoantes (b, f, v, d, g, j, p). Usar um "~" acima de uma consoante nasalada torna impossível a escrita em uma máquina de escrever comum. Estas letras portanto, não possuem o valor real de consoante, e Heli Chatelain em sua gramática, costuma dizer que o "M" e o "N" nestes casos não são "puros".

Em kimbundu, então, não existem palavras com DUAS consoantes ligadas, e quando tal fato ocorre, é porque estamos diante do som nasal representado graficamente.

Então se o som nasal nada mais é que uma representação gráfica, o que diriam vocês sobre qual a forma de escrita correta? Nzambi(Deus) ou Zambi? Um grande amigo virtual fez esta pergunta no antigo fórum da hp, que não mais se encontra disponível, assim que comecei meus estudos e, na época, eu não sabia responder o porquê de tantas escritas diversificadas no Brasil, tais como Nzambi, Nezambi, Inzambi, Anzambi, Zambi, N'zambi.

Sabendo que cada consoante em kimbundu estará sempre ligada a uma vogal e nunca a outra consoante, e que vemos escrito "NZ" em Nzambi, concluimos então que este "N" não tem o valor de consoante, mas serve por convenção como um sinal para sabermos que o Z deve ser pronunciado de forma nasalada.

Inclusive, quando vamos separar as sílabas, este M ou N que servem para identificar o som nasal, acompanham a consoante a qual estão nasalando, ficam INSEPARÁVEIS.
Assim ao separarmos a palavra kimbundu temos: Ki - mbu -ndu.

Bem, voltando a pergunta: Nzambi ou Zambi?

A letra Z em kimbundu, quando inicial a um nome (e não a uma forma de conjugação verbal ou partícula), sempre tem o som nasalado. Não diria que existe erro em escrever Zambi, mas Nzambi facilita para quem conhece a convenção, a identificação do som nasalado.

Agora vamos pensar nas outras formas escritas. Estão erradas?

Se pensarmos bem, os falantes do kimbundu, no início da colonização, não possuiam escrita. Muitos aprenderam primeiro a escrever o português, sem ter conhecimento das convenções variadas que iam sendo adotadas para representar a escrita da própria língua.

E no Brasil?

Os que aqui chegaram, passaram para o papel em grande parte da forma como entendiam ser melhor representado o som, além do mais, muitos possuiam diferenças regionais de pronúncia.

E com o passar do tempo, muitos de seus descendentes já não dominavam nem mesmo o próprio idioma, e simplesmente passaram, tal como hoje fazemos, a questionar o porquê de tantas formas de escrita diferentes.

Também é possível que a escrita Anzambi tenha originado-se da união do genitivo "a" (de, do, das, dos, das) com a palavra Nzambi, escrita de forma acoplada. Como exemplo, vi no livro "Jisabhu", de "Rosário Marcelino", o enunciado de um conto tradicional com a seguinte escrita: "Mayaki Angandu" (Ovos de Jacaré). Esta mesma frase seria escrita por Chatelain da seguinte forma: "Maiaki ma Ngandu", com o genitivo "A" (de, do, da, dos, das) escrito "MA", precedido do prefixo de concordância de classe. Prefiro, particularmente, a escrita de Chatelain, pois não descaracteriza o substantivo Mayaki. Particularmente acho mais correta esta escrita, pois assim a língua não perde a sua estrutura. Imaginem escrevermos em portugês OVOS DEJACARÉ ? Como unir DE ao substantivo? Fica parecendo que criamos uma nova palavra (DEJACARÉ)

Adjetivos e conjugações verbais sofrem, com frequência, mudanças em sua forma inicial, dependentes das regras de concordância e do tempo verbal em questão, no caso dos verbos. Mas, quanto ao substantivo, tal fato não deveria ocorrer, uma vez que é característica da língua a separação do nome em suas 10 classes (no singular e plural) de acordo com seu prefixo, que é invariável.

Observem também o uso do "H" após a letra "B" (em jisabhu) por Marcelino, bem como o uso do "Y". Vemos por este exemplo o quanto temos que considerar a diversidade na escrita adotada pelos autores, e também estarmos atentos para as variantes de pronúncia. Vamos ter mais cautela portanto, antes de supor que esta ou aquela forma de escrita ou de pronúncia seria correta ou não.

Assim, este som nasalado, foi representado por alguns da forma como compreendiam este som, que parecia ter um "~" acima da consoante, escrevendo então Inzambi, Anzambi, e muitos escreveram simplesmente Zambi, nasalando contudo a letra Z durante a pronúncia.

Em kimbundu, os nomes (substantivos), são separados em 10 classes, de acordo com a sua escrita inicial, ou melhor, de acordo com seus prefixos. Assim temos palavras iniciadas por MU, KI, RI ou DI, KA, TU, LU...

Considerando que Nzambi é um nome que pertence a classe IX , leiam o que escreveu Chatelain no capítulo em que fala sobre a derivação dos nomes desta classe: "Quando dissemos que o singular da classe IX carece de prefixo, não falamos com todo o rigor científico. De fato o prefixo do singular da classe IX é o incremento do nasal..."

Concluí após a leitura, que a forma escrita adotada por alguns, N'zambi, tem a função de destacar a letra N do restante da palavra através do apóstrofo, ou seja, reforçando que este "N" tem função de nasalar,como observa Chatelain, assumindo assim este som o valor de prefixo, o incremento do nasal) Assim quem escreve, também o faz quando todo "M" ou "n" que tenha a função de representar o som nasal na inicial de um nome (seguido do apóstrofo, destacando que pertence a classe IX). Assim, vemos muitas vezes escrito N'dongo, N'gola.

Também na classe IX encontram-se todas as palavras estrangeiras que, ao sofrerem africanização, não assumiram o prefixo de nehuma das outras classes, bem como palavras derivadas de verbos, cuja consoante inicial é refratária ao som nasal (isto é, não são precedidas de M ou N segundo a convenção). Iniciada por Ne (que no caso não é prefixo), só encontrei a palavra NELA, palavra derivada (estrangeira) de anel

E quanto a escrita Nezambi então? Estaria correta?

Bem, creio que está errada. Pois este N (Nzambi), não é para ser pronunciado como consoante, e sim serve para representar o som nasal do Z inicial de Zambi (Nzambi). Penso ter sido originado não de uma representação escrita adotada por alguém para a pronúncia, mas sim o contrário, uma pronúncia equivocada da representação escrita por exemplo de alguns ao ler Nzambi ou mais provavelmente a forma N'zambi em especial que por separar através do apóstrofe o N do Z, pode fazer com que aquele que lê e desconhece esta convenção, pense que este N deve ser pronunciado - e o pronuncia (NE) - imaginando até, quem sabe, que o apóstrofo estaria no lugar de uma vogal E que foi suprimida, fazendo com que outro que o escutou passasse a pronunciar e depois a escrever desta forma (Nezambi). Com isso a palavra passou a sofrer modificação inclusive quanto a pronúncia.

Mas ainda fiquei pensando na hipótese de ser originado da junção da forma NE com Zambi, sendo NE uma possível contração de uma expressão, quem sabe "ngana é" (teu senhor), ou "ngana ê! (seu senhor, ou ainda Ne [e, com]). A contração se faria(caso seja esta hipótese real) a partir do NA de ngana, e nunca do N inicial, que é somente um sinal de nasalização. Existe no dicionário a palavra NA, definida como a forma abreviada de ngana, mas nunca a vi acoplada a palavra seguinte, e acho correto desta forma. Entendo que até é possível, durante a pronúncia, ocorrer esta junção, mas não na forma escrita. Podemos escrever Na Nzambi (senhor Deus), sendo que na pronúncia corrida, de certo alguém iria supor tratar-se de uma só palavra.

Podemos sim, ter o acoplamento de duas palavras (originando UM nome único- ou nome composto), mas estes agora figurando como novos nomes, encontram o seu lugar na classe dos substantivos, com seu prefixo de classe correspondente .

Já as palavras que sofrem abreviação em sua estrutura, ou supressão de seus prefixos de classe, não perdem contudo o seu lugar dentro da classificação dos substantivos, uma vez que permanecem as regras de concordancia, que dependem da classe a qual pertencem, mostrando que aquele que fala, a identifica perfeitamente Assim por exemplo a palavra Kamba(amigo), suprimida de seu prefixo de classe (DI ou RI de acordo com a pronúncia), pode ter eliminado o seu prefixo, mas subentende-se que ele lá está, quando em uma oração, aparece a concordancia com ele. Dizemos então Kamba diami, ou Kamba riami (veja mais no tópico específico).Assim também ocorreriam com formas abreviadas.

Existe ainda o caso, como veremos, da união do substantivo com pronomes que o seguem, como por exemplo ngan'é (ngana é=teu senhor), mas esta junção é eufonica (aliás como sempre quando se faz uso do apóstrofo), e em nenhum momento, teremos ngan'é classificado como uma nova palavra.

Mas como pronunciamos Nzambi? Meus amigos, eu (tento) entender as regras de pronúncia e seguí-las, mas convenham que é difícil para muitos de nós que não tivemos contato com os que falam o idioma nativo tentar aprimorar nossa pronúncia. O som nasal é difícil, não estamos acostumados a presença dele em nossa língua portuguesa, e devemos lembrar que ele se encontra não somente expresso no início das palavras, mas muitas vezes em toda ela, tal como em kimbundu (ki -mbu -ndu). Imaginem a pronúncia do "B" e do "D" nasalados!

Vale lembrar também, que a letra "G" em kimbundu, sempre tem o som nasalado, e seguindo a convenção adotada por Chatelain, sempre será escrito NG, isto é, a letra G sempre será precedida do N, que serve para nasalar a mesma.

Bem, espero que tenham entendido o som nasal e algo sobre a pronúncia. Desculpem-me se alonguei o assunto. Segue abaixo, tentando expor de forma resumida, algumas observações gerais de casos em que usamos o apóstrofo, inclusive tentando observar as variantes escritas. Tento ir passando para o papel, até mesmo a sequência dos meus pensamentos (fruto de meus questionamentos), e peço a Nzambi que me ajude!



1)A vogal "I" eufônica

Na classe Ix dos substantivos, temos algumas palavras iniciadas pela vogal "I", sendo ele meramente eufônico, isto é, para dar sonoridade agradável a linguagem, servindo de prefixo para palavras que de outra forma seriam monossílabas.
Como exemplo temos Inzo, inji, ingo, imbua, ixi, imbia. Sabendo que o "m" e o "n" ligados as consoantes, servem para nasalar as mesmas, caso não tivéssemos o I, todas estas palavras teriam uma única sílaba. Este "I" eufônico geralmente cai (não necessariamente) quando estas palavras vêm precedidas de vogais, e assim teremos no lugar da vogal I o apóstrofo indicando a supressão.
O 'nzo, O 'mbua, O'nji, O 'ngo, o 'mbia. Estas palavras, quando colocadas no diminutivo, passando a pertencer então a classe X que abriga todos os diminutivos, ficam precedidas do prefixo da classe X, que liga-se a ela, perdendo também o I, sendo este substituído pelo apóstrofo.
Escrevemos então Ka'mbua (cãozinho), Ka'nzo (casinha), e no plural tu'nzo, tu'mbua. Esta forma escrita observei em Chatelain, porém, Cordeiro da Matta abole o apóstrofo e escreve, por exemplo, Kanzo

2)A vogal "U"

A vogal "U" pode (mas não necessariamente) ser suprimida, quando em uma sílaba, encontra-se entre "M" e "B", se este "M" for precedido de uma vogal, mesmo que esta vogal seja a final de outra palavra que o precede. Neste caso, o apóstrofo indica esta supressão. EXEMPLOS:

Mubika (escrita por inteiro); O m'bika; Kam'bika

Ku m'bana

3)A letra "K"

A letra "K" é suprimida, geralmente, quando vem precedida dos locativos MU; BU; KU (leia mais sobre os locativos no tópico específico). Em seu lugar colocamos o apóstrofo que indica a supressão.

Exemplo:

Bu kaxaxi; bu 'axaxi)

Mu kalunga; mu 'alunga

4)O apóstro usado entre a letra G e as vogais I e E

Cordeiro da Matta escreve Ng'enji(forasteiro, estranjeiro, viajante) e Ng'indu(trança); pang'e(irmão) enquanto Chatelain escreve Ngenji (sem o apóstrofo entre a letra "G" e a letra "I"); e Ngindu, pange(também sem o apóstrofo).
Chatelain faz uso do apóstrofo somente para indicar a supressão de uma letra, e por issso não faz uso do mesmo ao escrever estas palavras.
Já Cordeiro da Matta, o usa nestes casos, para realçar que a letra G não deve ser pronunciada como seria comum no português com o som de "j". Nos faz pensar até mesmo que o autor, coloca o apóstrofe no lugar da vogal U (gue = g'e ; gui=g'i) que lá estaria tal como adota-se normalmente em português.

5)Apóstrofo entre o som nasal e a palavra

Alguns autores representam o som nasal de algumas consoantes também pelo "m" e o "n" precedendo as mesmas, porém, colocam um apóstrofo após este M e este N com a finalidade de realçar que trata-se do som nasal. Evidente que Chatelain que usa o apóstrofo somente com a finalidade de supressão NÃO adota esta escrita.

Exemplos:

N'gola, N'dongo, N'denge, porém sempre vejo a preocupação em destacar a forma nasalada que acontece somente no inicio da palavra, reforçando assim o incremento do nasal como valor de prefixo da classe IX.

6)Desuso do apóstrofo

Alguns autores não fazem uso quase por completo do apóstrofe, fazendo frequentes contrações de palavras e supressões de letras sem a utilização do mesmo.

7)A vogal "A"

A vogal "A" quando precede outra vogal "A" ou uma vogal "E", costuma ser suprimida, sendo a supressão representada pelo apóstrofo. (A+A=A ou 'A; A+E=E)

Exemplos:

Mama etu; Mam'etu (note que aqui, além de suprimida a vogal "A", houve o acoplamento do pronome possessivo etu, como ocorre em outros casos)
Tata etu; Tat'etu
Mona ê ; Mon'ê
Kima eki; Kim'eki
Pala eme; pal'eme
mubika etu; o m'bik'etu

8)Vogais duplicadas

Toda vogal que encontrar-se duplicada, isto é, o encontro de duas vogais iguais, pode na escrita, suprimir-se a primeira, colocando-se um apóstrofo para indicar esta supressão.

Exemplos:

Mukongo ó; Mukong'ó
Ngi ixana; ng'ixana
Ngi ibula; ng'ibula

9)A vogal "A" precedendo "O"

A vogal "a" quando precede a vogal "O" geralmente é suprimida, e nestes casos, o apóstrofo irá indicar esta supressão.

Exemplos:

Ualua ó; ualu'ó
Uta ó; Ut'ó
Kuria oku; Kuri'oku

10)A conjugação verbal

A conjugação verbal em kimbundu, apresenta inúmeras particularidades que serão abordadas no tópico específico a ela dedicado, e lá iremos ver inúmeras vezes o emprego do apóstrofo.
Como o tema é longo, pretendo fazer as observações durante o desenvolvimento do link específico.

11)Os pronomes possessivos

Repararam no poema de Kiba-Mwenyu na apresentação de nossa HP?

Escreveu ...dya 'xi y'etu; mwenyu w'etu
O autor Kiba-Mwenyu, faz questão de por vezes conservar o genitivo ("A"=de. do, das, dos, das), mesmo que esteja ele subentendido através do uso do apóstrofo, e escreve por exemplo y'etu (originada de "ya etu" =de nós), w'ami (originade de "wa ami"), aonde Chatelain escreveria ietu, uami; di'ami(originado de "dia ami"), onde Chatelain escreveria diami(Para ver mais sobre os pronomes possessivos, e como foram originados, leia o link específico).

Toda vez que vemos em um texto o uso do apóstrofo, ele geralmente se faz presente devido a supressão de letras, supressão esta, que confere maior sonoridade a língua.



Segue agora o e-mail enviado por um de nossos leitores, e alguns comentários a respeito:


"Não é verdade que existisse "reino de Negola". O reino chamava-se de N'Dongo e a sua lingua era, de facto o Kimbundo (ou Quimbundo). Negola ou N'gola (e não Ngola) era o titulo do rei. Por exemplo Negola Kiluange. Da mesma maneira que o titulo do imperador do reino da Lunda era Muatiânvua e do imperador de Roma César. O que sucedeu é que os Portugueses, pela lei do menor esforço, começaram a chamar ao reino do Dongo(ou N'Dongo) reino do Negola, e, com o decorrer do tempo, Angola. Daí passar o Kimbundo a lingua de Angola."




Comentários:

Quanto a observação histórica, embora soubesse que o nome do reino era Ndongo (até a data que conhecemos), deixei escrito conforme li na gramática de Chatelain (que refere-se ao kimbundu como sendo a língua do antigo reino de Angola), mas escrevi no entanto Ngola, de acordo como consta a escrita no dicionário de Cordeiro da Matta, pois segundo consta neste dicionário, em 1548 o reino já havia assumido este nome, Ngola (o nome do soberano).

Quanto ao uso do apóstrofo na palavra (N'gola), ele não está escrito desta forma no dicionário de Cordeiro da Matta (embora outros autores pudessem assim escrever). Se procurarmos a definição da palavra Ngola neste dicionário poderemos ver também que ele define a palavra como o nome do Rei do Ndongo (hoje Angola) no princípio da conquista...."porém continua com a descrição histórica da autoria de Lopes de Lima que segue....."O moço an- Gola (Ngola) tendo sucedido seu pai em 1559 estendeu a sua conquista até a barra do Dande". "Este mesmo rei governava, - e JÁ SEU PAI TINHA DADO O SEU NOME DE AN-GOLA ao REINO que ele ia conquistando-quando em 1560 Paulo Dias de Novaes lhe foi por embaixador".

Pela descrição, percebemos que de acordo com o autor o nome não foi dado pelos portugueses, e a conquista a qual ele refere-se não é a dos colonizadores. De certo outras "Histórias" devem existir, e nós que vivemos no presente, temos que ter o cuidado de ponderar e relacionar os autores nos quais estamos nos baseando e se possível pesquisar outras fontes, relatando as mesmas, apesar de termos esta ou aquela preferência.

Talvez seja essa a razão das diferenças e variantes que encontramos inclusive na representação gráfica. Observamos a escrita an-Gola, na descrição histórica adotada por Lopes de Lima (referência quanto a autoria da descrição, colocada entre parênteses pelo autor do dicionário, Cordeiro da Matta). Era portanto AN-GOLA a representação gráfica usada por Lopes de Lima em específico, na tentativa de expressar o som nasalado da forma como o compreendeu.

E hoje, conhecemos o país ANGOLA, escrito tal qual a escrita adotada por Lopes de Lima, e com certeza por tantos outros que assim a escreveram.

Bem, pode ser que eu ainda vá descobrir que o nosso leitor tem alguma razão quando escreve Negola ou N'gola, pois fico pensando se poderia o Ne de Negola, ser alguma forma abreviada ou contrata de alguma expressão (Ngana ê= nosso senhor, que passou a forma ne????, ou ainda NE=e, com ligada a palavra GOLA???), e que o apóstrofe colocado na palavra N'gola, para ele sendo um sinônimo de Negola, estaria indicando a supressão da vogal E? Veja que para ele N'gola e Negola são sinônimos, pois que diz N'gola OU Negola. Mas qual o prefixo de classe de Negola? Parece que ficamos diante de uma nova palavra que não encontra seu lugar na classe dos substantivos.
E mesmo que seja a união de NE e Ngola, e pensando que o apóstrofo estaria indicando a supressão da vogal "E", não adota o N prévio a letra G com a função indicar que ele deve ser nasalado (não adota esta convenção), pois se assim fosse teria escrito NENGOLA ou N'Ngola? Mas fico confusa, pois escreve N'dongo OU Dongo (usando aqui claramente o N' para representar o som nasalado da letra "D" de Dongo. Pensei ainda que a escrita N'gola poderia ser a forma contrata de N'Ngola que pelo fato de termos duas consoantes N repetidas (N'Ngola), elas poderiam ter assumido esta forma contrata (N'gola). Mas isto não se aplicaria pois o N antes do G não tem valor de consoante (convenção).

Bem, só tenho muito a agradecer a pessoa que enviou-me este e-mail, pois ela acabou despertando em mim todos estes questionamentos acima (e quantos..., perceberam? rsrs) e fui pesquisar as várias formas que pude encontrar nas variantes da escrita quanto ao uso do apóstrofo, além de perceber a necessidade de partilhar com todos o que encontrei.

Isto de certo me ajuda muito, pois passo a pesquisar bem mais, abrindo um leque para muitos temas que até então não havia percebido ainda serem de tanta importância em nossa HP.

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